23 de maio de 2017

A Tirania das Redes Sociais

Só quem nunca teve o hábito de ler jornais pode pensar que nas suas páginas se não mente, se não deturpa, se não manipula. A História da Imprensa é uma história de guerrilha, de polémica, de política, de escândalo. Só quem nunca leu Camilo Castelo Branco não sabe que uma das suas primeiras obras foi a reinterpretação da notícia de um crime: «Maria, não me mates que sou tua mãe», ideal para promover a literatura entre aqueles que  só liam as parangonas.
Mas, desde que as redes sociais permitem que o que antigamente era escolhido para ser publicado nas «Cartas ao Director» seja hoje amplamente difundido, passamos de um 4.º poder, para uma tirania de muitos poderes ou, se quisermos, a ascensão de uma 5ª coluna de comentadores, para quem tudo deve ser discutido.
Vem isto a propósito da recente polémica sobre o teor das notícia do Correio da Manhã, jornal e televisão reconhecidos pelo uso de uma violenta estratégia de comunicação em que o importa é espicaçar o voyeurismo dos leitores ante notícias de crimes, boatos ou escândalos morais e sociais. A estratégia funciona, porque se baseia na manipulação de desejos básicos da humanidade, como o sexo. Mas o mesmo canal usado para estimular a observação e a escrutinação do Outro - patologia largamente acalentada pelo Facebook - tornou-se veículo de moralização da Imprensa.
Moralizar a Imprensa é como acreditar em unicórnios. Basta colar um chifre no focinho de um cavalo. Mais tarde ou mais cedo o chifre cai.
O recente caso da publicação de um vídeo de suposta agressão sexual, resultou num coro de crítica da massa facebookiana, acicatada pelos autores da página Truques da Imprensa Portuguesa, coletivo de anónimos justiceiros que pretendem desinfectar o universo mediático português.
A  campanha aumentou de som e perante isso eu, que nem jornalista, sou, resolvi tomar as dores da classe e contactar o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas:

Exm.ºs Senhores
Tenho assistido à evolução dos conteúdos veiculados numa página de Facebook intitulada Truques da Imprensa Portuguesa.
A página, gerida anonimamente, vem constantemente apresentando aquilo que considera ser casos de violação do código deontológico e da ética jornalística, fazendo, assertivamente, acusações e críticas, não poucas vezes sem qualquer respeito pelos intervenientes (sejam os jornalistas directamente visados ou indivíduos de alguma forma associados aos casos «denunciados»).
O anónimo ou colectivo de anónimos que gere a página ufana-se de se substituir às entidades competentes, nomeadamente a ERC e o Conselho deontológico, a que agora me dirijo.
Numa última postagem e vídeo , o autor ou autores, fazendo valer-se do apoio massivo que têm estimulado, sugerem um boicote ao grupo CMTV e CM invocando a ideia de «decência». O tom do vídeo e da mensagem sugere uma espécie de incitamento à violência contra os próprios jornalista ou, pelo menos, um claro apoio à obstrução pública ao seu trabalho.
Como cidadão interessado, sempre crítico com o meu direito à informação e até à não-informação, não posso deixar de deixar aqui o meu protesto.
Se é certo que o jornal, o canal de televisão e os jornalistas em causa têm prestado, quanto a mim, um mau serviço profissional e ético, menos compreendo que um anónimo ou um punhado deles, use de forma cobarde, a incognicidade para alimentar ódio contra-corporativos. E se estes ódios se fundamentam em razões que vão além da informação de qualidade, como parece ser o caso dada a frequência de ataques ciúrgicos a determinados órgãos, temas e jornalistas, mais ainda devo manifestar o meu repúdio.

A resposta não podia ser mais clara:

"A questão que coloca não é assunto que caiba nas competências do CDSJ."

Com jornalistas assim, não se pode pedir muito.

24 de abril de 2017

A polémica das pinturas (II)

Numa altura em que se fala de ciência, convém lembrar todo o processo e atitudes dos seus responsáveis relativas à autenticidade dos quadros expostos no MNAA durante a exposição A Cidade Global.
Numa posta anterior fiz o ponto de situação sobre o caso, que iniciou com as acusações públicas dos historiadores Diogo Ramada Curto e João José Alves Dias acerca da autenticidade iconólogica (e material) dos quadros intitulados «O chafariz d'El Rei» e a «Rua Nova dos Mercadores», ambos de colecções particulares.
Desde então (1-3-2017), registo os seguintes desenvolvimentos :

- A 6-4-2017, saem a público os exames realizados ao quadro Chafariz d'El rei. O relatório, da autoria de Sara Valadas e António Candeias, ambos do Laboratório Hércules da Universidade de Évora conclui que «“No que diz respeito à análise dos materiais constituintes e da forma como estes são aplicados esta obra terá sido executada muito provavelmente por pintor de influência ou naturalidade do norte da Europa a partir da 2ª metade do século XVI, época em que se verifica o uso generalizado do pigmento azul de esmalte e se começam a utilizar imprimaduras coradas” (Expresso, de 7-4-2017)

- No dia seguinte, a 7-4-2017, na mesma data, Diogo Ramada Curto, reage à notícia, escrevendo um artigo para o jornal Expresso, onde assinala, com violência, a violência da reacção às suas anteriores afirmações/acusações. Com inusitada agressividade (pelo menos para nós, comuns mortais que assistimos ao desenrolar da peça) Ramada Curto atira-se a Baptista Pereira, chamando-lhe «conferencista dos brincos Braganzia, trauliteiro de serviço e d’Artagnan de uma história da arte corporativa» (cremos que num aspecto se referirá a isto http://inparties.blogspot.pt/2015/02/casa-da-cultura-no-estoril-palestra.html) e sintetiza a sua aposição:
«As janelas verdes não são o Canal Caveira de triste memória, tal como o MNAA não pode servir de montra para a valorização de activos bancários – assets para utilizar a linguagem de quem gosta de finissages – , nem pode andar ao serviço de uma facção boa contra uns mauzões, filhos do demónio, com os quais fui confundido.»

Não querendo ater-me às expressões menos felizes e de carácter corporativo ou pessoal exaradas em letra de forma pelo autor, não posso deixar de sublinhar as incongruências que Ramada Curto colhe no processo de exame, nomeadamente a incongruência das datas da sua realização, em relação à presença da pintura da exposição e os erros (grosseiros, atente-se) de identificação dos tipos de madeira usados como suporte da camada pictórica.

- A 08-04-2017 o Expresso noticia que o MNAA na pessoa do seu director «não vai fazer qualquer exame às controversas pinturas da “Rua Nova dos Mercadores”, cartaz da exposição “A Cidade Global”. Alegando os custos dos exames, que ficariam a cargo do MNAA, António Filipe Pimentel descartou tal hipótese.

- No mesmo dia Vitor Serrão reage através da sua página de facebook, reiterando a autenticidade (inabalável) das pinturas e recusando as «recentes críticas sensacionalistas dos distintos historiadores Diogo Ramada Curto e João Alves Dias tentaram desvalorizar, vendo estes quadros como produto de visões ultra-nacionalistas contemporâneas (!) que visaram destacar a visão filo-fascista da História portuguesa, branqueando-a numa falsa perspectiva interclassista e adoçando-lhe o carácter esclavagista e xenófobo...»

É claro que todo o processo envida, como já referimos, de tristes irresponsabilidades que nunca serão assacadas - a principal, culturalmente habitual, a de fazer a casa pelo telhado, apresentando grandes arengas com coisa pouca, num mundo e num tempo em que não há ainda o básico.
Nesse sentido, talvez tenha razão a crítica da vernissage, de Ramada Curto, embora a violência com que irrompeu na comunicação social (ainda que se adivinhem razões de estatuto que só os palcos da inteligetzia lisboeta descortinam...) não justifique tal libelo.

No fim de tudo, os grandes e poderosos continuam firmes, nas suas assombrosas cátedras de certeza e... Joe Berardo pode dormir descansado, assim como quem supostamente lhe não vendeu gato por lebre.
No fim é isto, servimos sempre os mesmos. E gostamos de servi-los.

Adenda à posta anterior:
Comunicado de Vitor Serrão ao expresso de 5-3-2017

18 de abril de 2017

Gordon Parks e Portugal.

Gordon Parks

 
Gordon Parks

Falecido há 11 anos Gordon Roger Alexander Buchanan Parks, mais conhecido por Gordon Parks esteve (como muitos) em Portugal a serviço da revista LIFE e, ao contrário dos que já cá estavam, contribuiu para equilibrar a imagem de um país pictorialista e doce.
As suas fotografias são das mais cruéis captações de uma realidade escondida à vista de todos. 
Fazendo o percurso que todos faziam, por Lisboa e pelo Estoril, conseguiu através das suas fotografias captar tanto a arrogância, como a pobreza, sem menosprezar o retratado.
Com os seus planos picados e contra-picados, transforma homens e mulheres em gigantes aproximando-se das suas expressões  e dos seus sentimentos.
A mulher pedinte está, quanto a mim, ao nível da mãe migrante, da Dorothea Lange. Mas são outros tempos e...outro lugar.

Gordon Parks

13 de abril de 2017

O soldado Devezas.

Passaram, há dias, 99 anos sobre o desastre de La Lys, cuja proximidade histórica ao nosso tempo curiosamente quase obliterou em relação a Alcácer Quibir. Mas ambos foram dois dos maiores desastres políticos e militares do nosso Passado.
Revendo a data reencontrei no meu espólio esta fotografia - bilhete postal, a quem finalmente associei um nome e uma biografia.

No verso:

Quem seria o J. F. Devezas?
Felizmente que o Arquivo Histórico Militar disponibiliza as fichas individuais dos militares que constituíram o C. E. P. - Corpo Expedicionário Português - homens que entre 1917 e 1919 se mobilizaram para as movimentações europeias e africanas decorrentes da nossa participação na I Grande Guerra.
Procurando «Devezas», encontrei a ficha de Joaquim Fernandes Devezas, natural de São Mamede Infesta, Matosinhos, filho de João Fernandes Devezas e Maria Rodrigues Louro.
Era 2.º sargento da 2.ª Companhia de Sapadores Mineiros
Foi ferido em 20 de Março de 1918 e obteve alta em 10 de Abril.
«Louvado por ser uma das praças que mais se distinguiram na coadjuvação técnica e disciplinar que prestaram aos oficiaes da sua unidade»
Embarcou para Portugal em 28 de Março de 1919.
Assim fiquei a saber que possuo uma pequena lembrança de um herói anónimo.
Mas, e a «Miquinhas», quem seria?

8 de abril de 2017

O sarro salazarista.


O sarro salazarista é muito difícil de tirar. Nem com a pedra pomes democrática se raspa do corpo cansado desta república portuguesa.
Se não veja-se o recente concurso das 7 Maravilhas de Portugal - Aldeias. A filosofia subjacente à escolha é semelhante ao Concurso de 1938, organizado pelo então recém criado SNI - Secretariado Nacional de Informação, obra de António Ferro para dar expressão à política do espírito acalentada por Salazar. Aí se procurava o pitoresco, o etnográfico, o popular. Hoje, os mesmos recortes, só que com mais plástico, alumínio e festas desbragadas.
Até o conceito Aldeias de Portugal promove o típico e o fachadístico e pasme-se (ou não), até o logótipo do projecto lembra a iconografia de 1938, exibida na portada do folheto em cima.
Esta coisa das aldeias bonitas, very tipical, não só é uma forma deprimente de interpretar a ideia fadística da Casa Portuguesa, pobre, humilde e honrada, como escamoteia o facto de que as aldeias são as suas pessoas. Ora, sem pessoas não há vida. Apenas paredes caiadas e de vez em quando nem um cheirinho a alecrim.
Por muitos banhos que esta gente tome, - esta, das Câmaras Municipais, das Comissões de Coordenação e dos próprios governos - dificilmente consegue tirar aquele sarro salazarista.

5 de abril de 2017

Micro-mecenato e microhomens

Tem surtido efeito aquilo a que se chama na redes sociais e na comunicação social, pomposamente, crowfunding mas que existe uma palavra portuguesa para o definir: micro-mecenato. Dizem os dicionários que é uma forma de financiamento colectivo. Ora, pensei que isso já definisse a carga tributária que nós pagamos e que, entre outras coisas, deveria servir para manter o bem ou a coisa pública, isso a que vulgarmente se chama república.
Desde a iniciativa do MNAA para aquisição da pintura do Domingos Sequeira que um pouco por todo o país se tem convocado o cidadão a contribuir para compras e restauros de objectos e edifícios, como se o património fosse uma espécie de pobre pedinte, a quem se vai dando uns trocos, aqui e ali, para remendo da sua roupagem.
É óbvio que o micro-mecenato é uma estratégia louvável das sociedades contemporânea que funciona bem em países que já garantiram um estádio civilizacional acima da média; em países que possuem arquivos e bibliotecas com condições e estruturas modernas, que têm as suas colecções museológicas estudadas, conservadas e em depósitos adequados ou que contemplam o acesso gratuito à educação, à arte e à cultura em geral. O caso do Reino Unido por exemplo em que, mediante o acesso gratuito e universal aos excelentes museus, o visitante pode oferecer o que desejar para projectos paralelos dessas instituições, tornando-se, assim, um entre milhares ou milhões de mecenas.
Pedir, ou melhor, pedinchar, em Portugal, trocos para aquisições e restauros pontuais, quando tudo o resto falta é como revestir as paredes de uma casa em ruínas com tecidos: durante algum tempo pode parecer aconchegante mas sem telhado, com a chuva, com o vento e com o frio, lá se vai a roupagem
Mas é óbvio que lançar campanhas mediáticas de micro-mecenato condiz mais com a figura dos nossos governantes e dirigentes, sempre mais interessados em promover-se do que promover o colectivo. Aparecer na televisão implica reconhecimento mediático, condição indispensável para se construir uma fulgurante carreira nos dias de hoje.
Criticar a falta de verbas, a inexistência de recursos materiais e humanos, apontar os erros e as estratégias dos sucessivos governos, há 40 anos, é um convite à morte académica, social e política. Poucos são, na vasta massa funcionalista portuguesa, os corajosos que se atrevem a fazê-lo.
A maioria dessa massa é constituída por micro-homens.

31 de março de 2017

A Vida Portuguesa.

Gravura publicada em G., A. P. D. - Sketches of portuguese life, manners, costume and character. Londres: [Printed for Geo. B. Whittaker], 1826.

30 de março de 2017

Vidago Palace, 1936.

Munique, 1936. Fotografia de APIF | Nuno Resende


O primeiro episódio desta série de época traduziu-se numa boa experiência que há muito se pedia na televisão portuguesa. O cenário ajuda: um hotel de «fin-de-siécle atrasado», hoje numa periferia, mas que em 1936 constituía uma das principais entradas num Portugal em reconstrução, para quem fugia de uma Espanha em ruínas. Vidago, com as suas termas, o seu novo campo de golfe, o seu bucolismo, casa bem com o novo Estado Novo que augura esperança depois de uma república desastrosa.
Assim sendo, a produção conjunta entre entre televisões portuguesa e espanhola parece ter resultado num bom e cuidado investimento fílmico, apenas em parte prejudicado pela ligeireza do enredo e algumas personagens pouco críveis.
De resto, figurinos (e o respectivo elenco)
, cenários e fotografia conjugam-se num especial e deleitoso desfilar de um tempo português que já urgia ser ecrã.
Para ilustrar o tempo, e uma das cenas em volta do rádio, uma imagens cá das «minhas» que documenta a participação portuguesa nos jogos olímpicos de 1936. Na foto, provavelmente João Alberto Andresen (1890-1943), que naquele ano representou Portugal na modalidade de atirador.

O herói anódino.


Narciso: a imagem do «herói moderno». Pintura de J. William Waterhouse (1903). Walker Art Gallery, Liverpool


Não adianta discutir sobre heróis. Heróis são heróis, uns salvam pessoas, outros salvam-se a eles e outros não salvam ninguém. Mas há uma qualidade nos heróis que é discutível: a sua capacidade para gerar consensos.
Tivemos imensos heróis na História de Portugal. Aliás, deve-se aos heróis a construção efectiva e memorialística do país. O que seria de Portugal sem Afonso Henriques, Nuno Álvares Pereira, Vasco da Gama, Serpa Pinto, ou o soldado Milhões. Cada um deles foi, como o dicionário indica, um indivíduo que se destacou por um ato de extraordinária coragem, valentia, força de carácter, ou outra qualidade considerada notável.
É óbvio que os heróis o são mais ou menos, consoante os homens do seu tempo e consoante o que querem quem depois deles vem. Há heróis grandiosos que caíram em desgraça depois da morte, outros ainda em vida. Mas todos, em algum momento, foram reconhecidos, quer pela tal força de carácter, quer pela obra que deixaram: Afonso Henriques e Nuno Álvares Pereira, um país; Vasco da Gama e Serpa Pinto, conhecimento, o soldado Milhões, exemplo de coragem e valentia.
Os grandes heróis da mitologia e da história destacaram-se sempre pela força física e até pelo confronto, salvaguardando contudo, os interesses dos seus que nele se reviam.
Há, porém, um novo herói que nasce hoje. Não deixa de superar-se fisicamente, não deixa de reunir as condições de um indivíduo combativo, mas veste nova roupagem.
Além de procurar vencer, não tem ideais, é civicamente anódino e os combates que trava são meros exercícios dramatúrgicos, em que participa a troco de bom dinheiro. É narcísico e até misógino.
Heróis assim, o mais parecidos com este tipo, só eventualmente os gladiadores batalhavam por vida e morte. Estes novos heróis, porém, lutam apenas pela boa vida.
Mas o que distancia um herói moderno, dos velhos heróis da História é a falta de força de carácter dos primeiros.
Para ser herói, não basta construir uma imagem de herói. É preciso aceitar o lado humano que quem se supera para se afirmar.

14 de março de 2017

“TUDO INDICA QUE…” a história de um desenho


Um dos desenhos adquiridos na «Feira da Vandoma» a 1-10-2016. Desenho a tinta-da-china sobre papel: assinado e datado de 1935 com um poema de Álvaro de Campos, assinado. Dimensões (papel): 32x20,9.


No dia 1 de Outubro de 2016 adquiri, na Feira da Vandoma do Porto, por 15 euros, o desenho acima reproduzido. O indivíduo que mo vendeu informou-me que estava a substituir, naquele momento, o proprietário do espólio, «um espanhol» que se tinha ausentado do local poucos minutos antes. Sobre a origem dos desenhos, expostos e dispersos pelo chão numa lona de plástico, nada sabia.

Embora não sendo especialista na obra de Almada Negreiros, o traço e a circunstância de a um dos desenhos se associar um poema de Álvaro de Campos, deixou-me curioso. O vendedor tinha outros trabalhos semelhantes, todos colados sobre cartolina ou sobre cartão. Adquiri o que exibia o poema de Álvaro de Campos e um outro, de menores dimensões, intitulado Sherazade - aquele datado e assinado de 1935 e este de 1917, compra que resultou num total de 25 euros.

Como disse, embora sendo desconhecedor do processo de criação de Almada, verifiquei imediatamente que o traço dos desenhos (executado a tinta da china, técnica reconhecida dos trabalhos preparatórios e finais de Almada) e as próprias assinaturas (cada uma associada a um período da vida do autor) aproximavam-no aos exemplares que conheço, quer por consulta em livro quer por observação directa em contexto de exposição. E ambos, através das temáticas representadas, enquadram-se no tempo e na forma de produção de Almada, que elaborava, como se sabe, vários estudos antes do trabalho final.

O mais estranho eram, contudo, os lacres, os carimbos e as colagens apostas na frente e verso da cartolina e no verso do cartão: um carimbo dos Serviços Aduaneiros da Província de Angola e no verso de ambas as «molduras» colagens com etiquetas de papel indicativas da Presidência do Conselho de Ministros e da Fundação Calouste Gulbenkian, e ainda um lacre com monograma. Estes elementos pareciam claramente apostos aos desenhos para acentuar a sua autenticidade. Mas o estado do papel, amarelecido e com deterioração pela luz e acidez da tinta, parecia evidenciar trabalho antigo. 

Frente e verso da cartolina onde está montado (colado) o desenho.


Através de um amigo, contactei a Fundação Calouste Gulbenkian, que por canais informais me indicou o desconhecimento sobre tais desenhos ou a sua relação com a instituição.

Desenho [original] de Fernando Pessoa, executado por Almada Negreiros e vendido em 2008 pela PCV. Dimensões: 49x34 cm. Disponível aqui.


Contactei a leiloeira Palácio do Correio Velho para obter informação sobre o avaliador ou perito encarregue pela análise do desenho. Não obtive, até hoje, qualquer resposta.

Não sendo conhecedor, nem da obra nem do tempo artístico de Almada, propus-me contactar quem de direito ocupava esse lugar na produção historiográfica portuguesa. Numa busca em-linha surgiu um nome e o contacto de uma reputada investigadora, responsável pela inventariação do espólio do artista e a quem enviei a reprodução digital do desenho maior, explicando o percurso do mesmo.

A 10 de Outubro recebi a seguinte resposta: «estou cheia de trabalho. Infelizmente, pelo que pude ver, o seu desenho não será um estudo do Almada». Sem mais.

Naturalmente que uma observação directa ao desenho não basta para proferir uma asserção destas, quanto mais uma análise através de reprodução digital.

As perguntas que a investigadora não me colocou, coloquei-as eu aos técnicos do Museu do Papel, em Santa Maria da Feira. Efectivamente, sem possibilidade de fazer peritagens técnicas que impliquem análises internas ao suporte uma observação mais atenta permite identificar a marca d’água do papel que constituiu, neste tipo de obras, um elemento essencial quanto à sua datação. 

Recorte e trabalho de contraste realizado em photoshop para leitura da marca d'água do papel.


O profissionalismo da directora, Dr.ª Maria José Santos (a quem muito agradeço) contrastou com a atitude dos «peritos» antes contactados. A sua resposta foi célere:

«Na minha opinião, é impossível, no caso deste papel, afirmar com rigor uma data rigorosa para a sua produção, dado que o motivo principal desta marca de água (escudo representando uma cruz latina, encimado por uma coroa) deverá ter sido usado, na Fábrica de Porto de Cavaleiros, desde o início do século XX até finais da década de setenta, com algumas pequenas variantes: uma marca de água muito semelhante aparece em papéis desta fábrica da década de 1910: o mesmo motivo principal, tendo por baixo a palavra "THOMAR".§ Ou seja, a sua hipótese de que este belíssimo desenho possa ter sido realizado na década de 30 é perfeitamente ajustada. Bem gostaria de ser mais precisa relativamente à data de produção do papel que o suporta, mas, com rigor, não é possível fazê-lo dada a longevidade desta marca de água [sublinhado meu]»


Embora inconclusiva, esta análise permitiu-me aferir sobre a autenticidade do suporte. Colocando-se a hipótese de ser uma falsificação, estava perante uma boa falsificação, pois o falsificador preocupara-se em utilizar papel produzido durante a vida de Almada Negreiros (1893-1970).

Tendo como base esta hipótese fiz um primeiro contacto com a Polícia Judiciária, no sentido de averiguar sobre casos semelhantes. Tinha previamente sido informado por uma amiga sobre casos de falsificações da obra de Almada em Lisboa e, como tal, procurei aferir do estado e alcance dos mesmos.

Da conversa telefónica com o sr. Inspector Chefe resultaram mais dúvidas. Não se conhece qualquer caso recente de falsificação de desenhos nem a polícia dispõe de peritos específicos para a avaliação da autenticidade deste género de obras, recorrendo a técnicos de museu portugueses ou a antiquários. Em último caso, cabe ao Ministério Público conferir o «carimbo» de autêntico ou falso à obra em questão.

Naturalmente que me propus entregar os desenhos nas mãos da Polícia Judiciária, no sentido de esclarecer, pelo menos, se a venda dos mesmos resultará de actividade criminosa.

Mas a questão aqui parece ser mais séria. Este mundo da peritagem é um mundo de aparências, como de resto confirma o recente caso das pinturas expostas no Museu Nacional de Arte Antiga. O modo como se usa e abusa da comparação ou de análises formais mais ou menos supérfluas deixa o universo da História da Arte entregue a uma espécie de adivinhos ou xamãs da datação e das atribuições.

(Este sistema de «data-atribucionismo», lembra-me aquele sacerdote que conheci numa paróquia da Beira Alta que datava as imagens religiosas pondo a mão sobre elas e, fechando os olhos, proferia uma data profética).

Mais, o mundo académico da História da Arte encontra-se ainda profundamente refém do anatiquarismo que a bel-prazer de alguns e com naturais razões económicas, dribla datas e atribuições no sentido de obter proveitos com obras falsas ou claramente inflacionadas.

Para terminar não posso deixar de narrar o contacto com uma jornalista a propósito deste caso.

No sentido de esclarecer ou adiantar pistas para o percurso dos desenhos (que é afinal o que me interessa no meio de toda a questão e não o seu valor autêntico) contactei uma jovem jornalista de um grande jornal electrónico de cuja autoria fora reportagem sobre recém inaugurada exposição na Fundação Calouste Gulbenkian. Aliás, desde Fevereiro que têm saído vários artigos e entrevistas (nomeadamente às netas de Almada) que aportam alguns dados interessentes sobre o modus faciendi do artista, nomeadamente a sua generosidade na distribuição de desenhos e trabalhos seus por amigos e conhecidos.

Contactei-a a 30 de Janeiro e até ontem, 13 de Março, desenrolou-se um diálogo composto por várias trocas de emeiles, onde lhe expus os dados e as minhas dúvidas. A jornalista mostrou-se interessada e disse que ia procurar informações que pudessem explicar ou desmontar esta história de desenhos de Almada Negreiros à venda na feira da Vandoma.

No último emeile que me remeteu, escreveu. «Tudo indica que o desenho que tem em sua posse é fácil [sic]. Lamento.» Naturalmente que a jornalista foi traída ou pelo corrector ortográfico ou pela distracção, querendo dizer que o meu desenho era falso. Não explicou, contudo, o que é quis dizer aquele tudo, nem como chegou a ele.

É esta veleidade que no meio da história me deixa, enquanto investigador, particularmente preocupado. Sobretudo porque, como docente responsável de disciplinas de metodologia de investigação e análise em História da Arte, acho inadmissível que não se procure associar a qualquer trabalho de investigação, a devida explanação e crítica dos métodos utilizados no percurso de averiguação, datação e atestado da autenticidade de qualquer obra de arte ou fonte histórica.

Ao que parece em Portugal há alguns peritos, mas poucos cientistas. Talvez isso explique, em parte, alguma da nossa pobreza e incultura académicas nas áreas da História e da História da Arte.